quinta-feira, 29 de maio de 2014

LIVRO - Todo Aquele Jazz



O livro de Geoff Dyer é o melhor livro de jazz que eu já li. Verdade que também foi o primeiro, mas tenho certeza de que a minha opinião não mudará com as próximas leituras, quando ocorrerem (inclusive, quero ler o “A História Social do Jazz”). É um livro para se ler grifando; muitas passagens são líricas e sua beleza sobreviverá fora do contexto do capítulo em que está inserida.

Segundo o próprio autor, a obra mistura fatos reais e ficção orientada por fotos e músicas. Ou seja, a escrita de Dyer é uma “jam session” de estímulos visuais, auditivos e pesquisa biográfica. Foram escolhidos alguns dos mais famosos instrumentistas do jazz (o livro não trata de cantores) para que suas vidas fossem expostas com honestidade e respeitosamente inventadas em alguns trechos de relevância.

O jazz não é um estilo fácil. Baseado na improvisação, não satisfaz quem espere o conforto de um refrão a cada duas estrofes. Esse livro retrata, com a riqueza de suas lindas descrições musicais, o estilo que está fadado ao underground. Sequer é necessário gostar do estilo para apreciar o livro

terça-feira, 29 de abril de 2014

FILME - Fading Gigolo (2013)



Tem o Woody Allen no papel de ele mesmo - como sempre -, o que, por si só, já me levaria feliz para o cinema. Mas o filme vai além, o que, repito, nem precisava. John Turturro interpreta um amigo de Woody Allen, que é convencido por ele de trabalhar como prostituto. Isso.

É interessante notar como o filme retrata as mulheres enquanto clientes da prostituição, e não como prostitutas. Distantes da objetividade masculina, elas tentam se aproximar e seduzir o homem a quem pagam, como se a questão financeira não existisse. Ainda acho que, em relação a elas, sexo nunca é só sexo. Elas têm muito a nos ensinar quanto a isso.

Fioravante (o nome de guerra da personagem) não tenta seduzir, é resguardado (talvez por isso seduza). E esse distanciamento aparente, apesar de as razões não serem exploradas pelo filme, tem base numa melancolia quase onipresente que permitirá que ele seja visto como algo maior que um amante pago. Quem sofre precisa enxergar suas dores no outro; só assim se conforta em saber-se entendido e, consequentemente, pronto a abandonar a dor que os uniu em primeiro lugar. Bonito ver um amor assim.

FILME - Grand Piano (2013)



Grand Piano é um filme para se ouvido: um suspense muitíssimo bem ambientado na música erudita contemporânea. Apresenta um pianista virtuoso assombrado por uma obra de seu mentor, cuja execução no passado não foi bem sucedida, e o episódio não consegue ser esquecido. A história é adoravelmente simples: o protagonista é colocado em uma situação de risco logo no início e passará o restante do filme tentando se livrar do problema.

Durante quase todo o tempo, a angústia de Tom Selznick é complementada pela música inquietante que ele mesmo executa. Difícil acreditar que alguém é capaz de raciocinar enquanto toca no piano peças tão complexas, mas essa é uma abstração necessária para quem assiste ao filme.

Não conheceremos tanto as personagens; apenas algumas dicas ou insinuações sobre suas personalidades. Há o conflito e a forma como lidam com ele. Só. Geralmente, isso me frustra um pouco, mas aqui o suspense funciona tão bem que eu pude abandonar esse tipo de expectativa sem problemas. Ouça. Sinta.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

FILME - La Vie d'Adèle - Chapitres 1 et 2 (2013)



A intenção do diretor Abdellatif Kechiche, nesse filme de 2013, foi sistematicamente atacada pelas “adaptações” do título, que, como de costume, prescindia de alterações. Em inglês, passou a ser Blue is The Warmest Color; em português, “Azul é a Cor Mais Quente”. O filme não passa nem perto de ser erótico (como gênero), então o título em inglês não é tão infeliz quanto o nosso, pois warmest se reveste de conforto, ternura. Já o título em português tenta vender um filme de sacanagem, e isso é vergonhoso, além de vender mal o filme.


Em linhas gerais, o primeiro capítulo fala de sexo; o segundo fala da afetividade consequente. Ambos com suas descobertas e temores. O tom de insegurança é tanto que Adèle passa boa parte do filme com uma expressão quase velada, sempre atenta a não ter seus sentimentos lidos por quem a pudesse julgar.


Talvez o filme não tenha sido pensado dessa forma, mas acho que ele é especialmente enriquecedor para o público masculino heterossexual. Isso porque nós crescemos tendo o lesbianismo como um fetiche para nos entreter; como se houvesse um convite implícito na relação entre mulheres. É uma bobagem e uma mentira, mas isso não torna o problema menos real. Espero que a honestidade do filme possa ajudar a desmistificar esse engano.

Apesar de não fornecer mais um capítulo para as fantasias masculinas adolescentes (como sugere o bobo título em português), ainda assim não dispensa sensualidade (o que seria outra bobagem), mas as cenas de sexo – dentre as mais gráficas que eu já vi no cinema – não são, nem de perto, as mais sensuais. Como o sexo é descoberta, ele é exposto com crueza, sem muita preocupação estética; a vontade de retratar a realidade sem maquiagem é tanta que quase não há música no filme. Havendo pouco para ambientar e guiar o espectador, ganha força o caráter enriquecedor que eu mencionei. Assim, a sensualidade é muito mais valorizada em seu aspecto acidentalquando não se pretende seduzir (especialmente nas cenas rápidas em que Adèle dorme. Meu lado voyeur adorou).


Adèle é, por isso tudo, mais real do que outras personagens que eu conheci nesse tipo de contexto. Foi humanizada, com tudo de bom e ruim que isso traz, e isso nos aproximou, por improvável que soe.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

FILME - Jeune Et Jolie (2013)



Acabei de ver esse filme, dirigido e escrito por François Ozon. Conta a historia de uma moça saindo da adolescência (talvez não) que resolve se prostituir, mesmo não tendo nenhuma das razões que estamos acostumados a entender como suficientes para isso. Não é pobre, nem foi abusada em nenhum momento.

Sua escolha gerará julgamentos por parte de personagens e expectadores, mas o importante é que o filme, em si, não a julga. Aceita que a natureza humana e a sexualidade, um de seus expoentes mais intrigantes, está além de rótulos. 

Dores físicas são fáceis de assimilar: há o corte, a marca. E cicatrizam a olhos vistos; quando sarar, acabou-se. A mente de Isabelle, a protagonista cujas dores nos chegam por poucos indícios, não encontra alívio tão fácil, e a prostituição lhe representa uma dualidade: o alívio e a opção pela dor que ela conhece e acredita dominar (reconfortante, ainda que incongruente).

O filme mostra que nem toda solução redime, e oferece aos homens uma perspectiva pouco usual da sexualidade feminina, que a gente finge conhecer.