Whiplash não é um filme sobre
inspiração e criatividade musical; aliás, Whiplash não é um filme sobre música.
Nele, temos um professor de música (Fletcher) e um aluno de música (Andrew); o
restante é tão periférico que sequer merece nota.
Fletcher não incentiva seus
alunos. Prefere massacrá-los com a possibilidade de que talvez não tenham
talento algum e serão esquecidos. Nas entrelinhas, fica claro que os
sobreviventes desse período sádico estarão mais próximos de figurar dentre os
principais músicos de jazz do planeta, tendo a posteridade como recompensa. O
filme mostra que a maioria dos alunos se submete a esse espinhoso sistema, mas
Andrew vai além disso. Como uma espécie de Aquiles moderno, ele não vê problema
abrir mão de uma vida equilibrada em troca da imortalidade na forma de fama.
Ele concorda com
o sistema do professor. Seu processo de aprimoramento claramente passa pela dor (inclusive
física). O fato de haver quem lhe proporcione ainda mais sofrimento
valida sua dinâmica interna (e muito cristã) de confundir sofrimento e mérito.
Aliás, a obsessão de professor e
aluno tem uma incongruência interessante: ambos lutam pelo mesmo tipo de
imortalidade - a fama merecida e duradoura -, mas não se importam com pessoas.
Família, alunos, colegas; são todos insetos a serem enxotados. Mas, se é assim,
o que é essa imortalidade senão o apreço de insetos?
Enfim, ao invés de exploração de
talento, temos a cobrança sem medida por esforço. E por que é um filme tão
bom? Por que é agradável ver alguém sofrer obsessivamente, como um atleta
olímpico, para tocar jazz?
Talvez seja porque não há
obsessão sem paixão, sem entrega. Em tempos de morno contentamento digital, onde
a felicidade é confundida com torpor o tempo todo, é revigorante ver a vida
explodindo dentro de alguém, ainda que sem limites.