terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

FILME - La Vie d'Adèle - Chapitres 1 et 2 (2013)



A intenção do diretor Abdellatif Kechiche, nesse filme de 2013, foi sistematicamente atacada pelas “adaptações” do título, que, como de costume, prescindia de alterações. Em inglês, passou a ser Blue is The Warmest Color; em português, “Azul é a Cor Mais Quente”. O filme não passa nem perto de ser erótico (como gênero), então o título em inglês não é tão infeliz quanto o nosso, pois warmest se reveste de conforto, ternura. Já o título em português tenta vender um filme de sacanagem, e isso é vergonhoso, além de vender mal o filme.


Em linhas gerais, o primeiro capítulo fala de sexo; o segundo fala da afetividade consequente. Ambos com suas descobertas e temores. O tom de insegurança é tanto que Adèle passa boa parte do filme com uma expressão quase velada, sempre atenta a não ter seus sentimentos lidos por quem a pudesse julgar.


Talvez o filme não tenha sido pensado dessa forma, mas acho que ele é especialmente enriquecedor para o público masculino heterossexual. Isso porque nós crescemos tendo o lesbianismo como um fetiche para nos entreter; como se houvesse um convite implícito na relação entre mulheres. É uma bobagem e uma mentira, mas isso não torna o problema menos real. Espero que a honestidade do filme possa ajudar a desmistificar esse engano.

Apesar de não fornecer mais um capítulo para as fantasias masculinas adolescentes (como sugere o bobo título em português), ainda assim não dispensa sensualidade (o que seria outra bobagem), mas as cenas de sexo – dentre as mais gráficas que eu já vi no cinema – não são, nem de perto, as mais sensuais. Como o sexo é descoberta, ele é exposto com crueza, sem muita preocupação estética; a vontade de retratar a realidade sem maquiagem é tanta que quase não há música no filme. Havendo pouco para ambientar e guiar o espectador, ganha força o caráter enriquecedor que eu mencionei. Assim, a sensualidade é muito mais valorizada em seu aspecto acidentalquando não se pretende seduzir (especialmente nas cenas rápidas em que Adèle dorme. Meu lado voyeur adorou).


Adèle é, por isso tudo, mais real do que outras personagens que eu conheci nesse tipo de contexto. Foi humanizada, com tudo de bom e ruim que isso traz, e isso nos aproximou, por improvável que soe.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

FILME - Jeune Et Jolie (2013)



Acabei de ver esse filme, dirigido e escrito por François Ozon. Conta a historia de uma moça saindo da adolescência (talvez não) que resolve se prostituir, mesmo não tendo nenhuma das razões que estamos acostumados a entender como suficientes para isso. Não é pobre, nem foi abusada em nenhum momento.

Sua escolha gerará julgamentos por parte de personagens e expectadores, mas o importante é que o filme, em si, não a julga. Aceita que a natureza humana e a sexualidade, um de seus expoentes mais intrigantes, está além de rótulos. 

Dores físicas são fáceis de assimilar: há o corte, a marca. E cicatrizam a olhos vistos; quando sarar, acabou-se. A mente de Isabelle, a protagonista cujas dores nos chegam por poucos indícios, não encontra alívio tão fácil, e a prostituição lhe representa uma dualidade: o alívio e a opção pela dor que ela conhece e acredita dominar (reconfortante, ainda que incongruente).

O filme mostra que nem toda solução redime, e oferece aos homens uma perspectiva pouco usual da sexualidade feminina, que a gente finge conhecer.