quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

FILME - Whiplash (2014)



Whiplash não é um filme sobre inspiração e criatividade musical; aliás, Whiplash não é um filme sobre música. Nele, temos um professor de música (Fletcher) e um aluno de música (Andrew); o restante é tão periférico que sequer merece nota.

Fletcher não incentiva seus alunos. Prefere massacrá-los com a possibilidade de que talvez não tenham talento algum e serão esquecidos. Nas entrelinhas, fica claro que os sobreviventes desse período sádico estarão mais próximos de figurar dentre os principais músicos de jazz do planeta, tendo a posteridade como recompensa. O filme mostra que a maioria dos alunos se submete a esse espinhoso sistema, mas Andrew vai além disso. Como uma espécie de Aquiles moderno, ele não vê problema abrir mão de uma vida equilibrada em troca da imortalidade na forma de fama. 

Ele concorda com o sistema do professor. Seu processo de aprimoramento claramente passa pela dor (inclusive física). O fato de haver quem lhe proporcione ainda mais sofrimento valida sua dinâmica interna (e muito cristã) de confundir sofrimento e mérito.

Aliás, a obsessão de professor e aluno tem uma incongruência interessante: ambos lutam pelo mesmo tipo de imortalidade - a fama merecida e duradoura -, mas não se importam com pessoas. Família, alunos, colegas; são todos insetos a serem enxotados. Mas, se é assim, o que é essa imortalidade senão o apreço de insetos?

Enfim, ao invés de exploração de talento, temos a cobrança sem medida por esforço. E por que é um filme tão bom? Por que é agradável ver alguém sofrer obsessivamente, como um atleta olímpico, para tocar jazz?

Talvez seja porque não há obsessão sem paixão, sem entrega. Em tempos de morno contentamento digital, onde a felicidade é confundida com torpor o tempo todo, é revigorante ver a vida explodindo dentro de alguém, ainda que sem limites.

domingo, 4 de janeiro de 2015

FILME - Cabin In The Woods (2012)

Era para ser um filme de terror, com tudo o que um bom filme do gênero pode oferecer. Clichês bem aproveitados, sangue falso aos galões e uma história minimamente amarrada. Mas ele vai divertidamente além disso. Aliás, é interessante falar sobre diversão neste ponto. Há filmes de terror que procuram somente assustar; são sérios e mesclam situações de terror e suspense. Eu gosto deles; mas acho ainda melhor quando o terror é mesclado à comédia. Serve para nos lembrar de muitas coisas: nossa fragilidade, nossos antagonismos, e por aí vai. É o caso do filme ora comentado.

A comédia dá a tônica tanto quanto o terror, e isso é muito divertido. O filme, desde o início, faz inúmeras referências a outros filmes de terror; em especial "Evil Dead", de Sam Raimi, o insuperável exemplo de jovens numa cabana prontinhos para virar carne moída na mãos de sádicos monstros, fantasmas, zumbis ou coisa que o valha.

Até aqui, sem novidades. O que "Cabin In The Woods" faz de original é reunir referências do terror/comédia e do terror/suspense numa clara e merecida homenagem, contextualizando-os todos numa improvável embalagem única. Não quero estragar as surpresas do roteiro, mas leia novamente esse texto depois de assistir o filme e isso ficará mais claro. Bem como o que eu vou dizer a partir de agora.

Na realidade do filme, as atrocidades sofridas pelos adolescentes têm uma razão de ser (sem spoilers por aqui, fique tranquilo). Na vida real, o motivo dessas atrocidades somos nós, expectadores com um mínimo de sadismo, que se divertem ao ver sangue alheio derramado. Faça paralelos entre as forças que comandam o filme e os expectadores de filme de terror e veremos (além de algumas semelhanças) que o filme tem, na verdade, duas homenagens: os filmes clássicos e neoclássicos de terror, e o estranho comportamento de se deleitar com a dor alheia, que abarca desde os petelecos que o Seu Madruga dava no Chaves, até o facão que Jason Voorhees usou à exaustão nos infindáveis "Sexta-Feira 13".

Eu sou um desses expectadores. Aceito a menção ao meu comedido sadismo como um elogio e prometo seguir assistindo a sangueira. Você também deveria.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

LIVRO - Todo Aquele Jazz



O livro de Geoff Dyer é o melhor livro de jazz que eu já li. Verdade que também foi o primeiro, mas tenho certeza de que a minha opinião não mudará com as próximas leituras, quando ocorrerem (inclusive, quero ler o “A História Social do Jazz”). É um livro para se ler grifando; muitas passagens são líricas e sua beleza sobreviverá fora do contexto do capítulo em que está inserida.

Segundo o próprio autor, a obra mistura fatos reais e ficção orientada por fotos e músicas. Ou seja, a escrita de Dyer é uma “jam session” de estímulos visuais, auditivos e pesquisa biográfica. Foram escolhidos alguns dos mais famosos instrumentistas do jazz (o livro não trata de cantores) para que suas vidas fossem expostas com honestidade e respeitosamente inventadas em alguns trechos de relevância.

O jazz não é um estilo fácil. Baseado na improvisação, não satisfaz quem espere o conforto de um refrão a cada duas estrofes. Esse livro retrata, com a riqueza de suas lindas descrições musicais, o estilo que está fadado ao underground. Sequer é necessário gostar do estilo para apreciar o livro

terça-feira, 29 de abril de 2014

FILME - Fading Gigolo (2013)



Tem o Woody Allen no papel de ele mesmo - como sempre -, o que, por si só, já me levaria feliz para o cinema. Mas o filme vai além, o que, repito, nem precisava. John Turturro interpreta um amigo de Woody Allen, que é convencido por ele de trabalhar como prostituto. Isso.

É interessante notar como o filme retrata as mulheres enquanto clientes da prostituição, e não como prostitutas. Distantes da objetividade masculina, elas tentam se aproximar e seduzir o homem a quem pagam, como se a questão financeira não existisse. Ainda acho que, em relação a elas, sexo nunca é só sexo. Elas têm muito a nos ensinar quanto a isso.

Fioravante (o nome de guerra da personagem) não tenta seduzir, é resguardado (talvez por isso seduza). E esse distanciamento aparente, apesar de as razões não serem exploradas pelo filme, tem base numa melancolia quase onipresente que permitirá que ele seja visto como algo maior que um amante pago. Quem sofre precisa enxergar suas dores no outro; só assim se conforta em saber-se entendido e, consequentemente, pronto a abandonar a dor que os uniu em primeiro lugar. Bonito ver um amor assim.

FILME - Grand Piano (2013)



Grand Piano é um filme para se ouvido: um suspense muitíssimo bem ambientado na música erudita contemporânea. Apresenta um pianista virtuoso assombrado por uma obra de seu mentor, cuja execução no passado não foi bem sucedida, e o episódio não consegue ser esquecido. A história é adoravelmente simples: o protagonista é colocado em uma situação de risco logo no início e passará o restante do filme tentando se livrar do problema.

Durante quase todo o tempo, a angústia de Tom Selznick é complementada pela música inquietante que ele mesmo executa. Difícil acreditar que alguém é capaz de raciocinar enquanto toca no piano peças tão complexas, mas essa é uma abstração necessária para quem assiste ao filme.

Não conheceremos tanto as personagens; apenas algumas dicas ou insinuações sobre suas personalidades. Há o conflito e a forma como lidam com ele. Só. Geralmente, isso me frustra um pouco, mas aqui o suspense funciona tão bem que eu pude abandonar esse tipo de expectativa sem problemas. Ouça. Sinta.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

FILME - La Vie d'Adèle - Chapitres 1 et 2 (2013)



A intenção do diretor Abdellatif Kechiche, nesse filme de 2013, foi sistematicamente atacada pelas “adaptações” do título, que, como de costume, prescindia de alterações. Em inglês, passou a ser Blue is The Warmest Color; em português, “Azul é a Cor Mais Quente”. O filme não passa nem perto de ser erótico (como gênero), então o título em inglês não é tão infeliz quanto o nosso, pois warmest se reveste de conforto, ternura. Já o título em português tenta vender um filme de sacanagem, e isso é vergonhoso, além de vender mal o filme.


Em linhas gerais, o primeiro capítulo fala de sexo; o segundo fala da afetividade consequente. Ambos com suas descobertas e temores. O tom de insegurança é tanto que Adèle passa boa parte do filme com uma expressão quase velada, sempre atenta a não ter seus sentimentos lidos por quem a pudesse julgar.


Talvez o filme não tenha sido pensado dessa forma, mas acho que ele é especialmente enriquecedor para o público masculino heterossexual. Isso porque nós crescemos tendo o lesbianismo como um fetiche para nos entreter; como se houvesse um convite implícito na relação entre mulheres. É uma bobagem e uma mentira, mas isso não torna o problema menos real. Espero que a honestidade do filme possa ajudar a desmistificar esse engano.

Apesar de não fornecer mais um capítulo para as fantasias masculinas adolescentes (como sugere o bobo título em português), ainda assim não dispensa sensualidade (o que seria outra bobagem), mas as cenas de sexo – dentre as mais gráficas que eu já vi no cinema – não são, nem de perto, as mais sensuais. Como o sexo é descoberta, ele é exposto com crueza, sem muita preocupação estética; a vontade de retratar a realidade sem maquiagem é tanta que quase não há música no filme. Havendo pouco para ambientar e guiar o espectador, ganha força o caráter enriquecedor que eu mencionei. Assim, a sensualidade é muito mais valorizada em seu aspecto acidentalquando não se pretende seduzir (especialmente nas cenas rápidas em que Adèle dorme. Meu lado voyeur adorou).


Adèle é, por isso tudo, mais real do que outras personagens que eu conheci nesse tipo de contexto. Foi humanizada, com tudo de bom e ruim que isso traz, e isso nos aproximou, por improvável que soe.